| As setentas semanas de Daniel |
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| Escrito por Bill | |
| 18/01/2005 | |
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“Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo, e sobre a tua santa cidade, para cessar a transgressão, e para dar fim aos pecados, e para expiar a iniqüidade, e trazer a justiça eterna, e selar a visão e a profecia, e para ungir o Santíssimo. Sabe e entende: desde a saída da ordem para restaurar, e para edificar a Jerusalém, até ao Messias, o Príncipe, haverá sete semanas, e sessenta e duas semanas; as ruas e o muro se reedificarão, mas em tempos angustiosos. E depois das sessenta e duas semanas será cortado o Messias, mas não para si mesmo; e o povo do príncipe, que há de vir, destruirá a cidade e o santuário, e o seu fim será com uma inundação; e até ao fim haverá guerra; estão determinadas as assolações. E ele firmará aliança com muitos por uma semana; e na metade da semana fará cessar o sacrifício e a oblação; e sobre a asa das abominações virá o assolador, e isso até à consumação; e o que está determinado será derramado sobre o assolador.“ a. IntroduçãoSir Edward Denny chamava esta profecia de “a espinha dorsal profética” (literalmente, “the backbone of prophecy”), querendo dizer com isto que se errarmos na interpretação desta profecia fatalmente erraremos em todo o restante. Ela é a única fonte bíblica que nos permite encontrar o último elo na cronologia da Bíblia, permitindo-nos descobrir o tempo entre o final do exílio e a vinda do Messias. Além disto, ela nos leva até o final desta dispensação, falando da Tribulação e chegando até às portas do Milênio. Se entendermos corretamente as diferentes partes das setenta semanas, teremos um “esqueleto” onde facilmente encaixaremos todos os outros acontecimentos proféticos. O inverso também é verdadeiro — se nos confundirmos aqui, nossa confusão será total. a.1. Resumo da profeciaQuando faltavam dois anos para terminar o período de setenta anos do cativeiro de Israel, Deus permitiu que Daniel entendesse isto por intermédio do livro do profeta Jeremias (25:11-12 e 29:10). Entendendo que os setenta anos do cativeiro estavam terminando e que Israel seria restaurada à sua terra, Daniel confessou a Deus a culpa da nação e clamou a Ele por livramento, baseado na palavra de Deus. Como resposta a esta oração, Deus diz, em efeito, que ainda passariam pelo menos quatrocentos e noventa anos (mais sete períodos de setenta anos) antes que Jerusalém fosse finalmente livre e houvesse “justiça eterna”. Não foi, possivelmente, a resposta que Daniel esperava, mas Deus quis mostrar ao Seu servo as coisas que iriam acontecer ainda com Jerusalém. A profecia fala de um período que culminaria com o final da transgressão, o final dos pecados, a expiação da iniqüidade, a entrada da justiça eterna, para colocar fim às visões e profecias, e para ungir o Santíssimo. Em relação a Israel, é a profecia que nos leva até o final de tudo. Entendendo que o final dos setenta anos preditos por Jeremias estavam no seu final, e que Israel seria restaurada à sua terra, Daniel talvez imaginasse que este seria o tempo da bênção eterna de Israel. O Senhor, porém, lhe diz: ainda restam sete vezes setenta anos até que chegue o fim das profecias e visões. b. Considerações preliminaresAntes de pensar nos detalhes da profecia, veja algumas lições bem práticas que podemos aprender examinando o contexto em que ela foi dada. b.1. O contextoDaniel, estudando o livro do profeta Jeremias, entendeu que o tempo das aflições de Israel estava se esgotando [veja Nota 1], e logo o povo de Deus seria liberto da escravidão. A atitude de Daniel diante destas verdades tem muitas lições a nos ensinar. Há dois elementos na oração de Daniel, como ele mesmo indica no v. 4: “E orei ao Senhor meu Deus, e confessei …” A primeira metade da sua oração é ocupada com a confissão da culpa do povo de Israel, e depois lemos da sua súplica (“orei”) em favor do povo de Deus. b.2. Um homem piedoso assume culpa (vs. 4-15)Parece estranho lermos as palavras de Daniel: “Pecamos, e cometemos iniqüidades, e procedemos impiamente, e fomos rebeldes, apartando-nos dos Teus mandamentos e dos Teus juízos; e não demos ouvidos aos Teus servos, os profetas … a nós pertence a confusão de rosto … porque pecamos contra Ti … nos rebelamos contra Ele, e não obedecemos à voz do Senhor, nosso Deus … porque pecamos contra Ele … apesar disso, não suplicamos à face do Senhor nosso Deus, para nos convertermos das nossas iniqüidades, e para nos aplicarmos à Tua verdade … pois não obedecemos à Sua voz … temos pecado, temos procedido impiamente.“ Tudo isto parece estranho quando lembramos da piedade de Daniel. Ele é um dos poucos servos de Deus na Bíblia que não é mencionado só de passagem e do qual não lemos de nenhuma falha ou erro. Durante todos os sessenta e oito anos do Cativeiro (até o dia em que recebeu este visão) ficamos impressionados com a pureza e piedade daquele homem que, quando jovem, “propôs no seu coração não se contaminar” (Dn 1:8) na Babilônia. Todos os reis debaixo dos quais ele serviu testemunharam da sua fidelidade. Até seus inimigos reconheceram: “Nunca acharemos ocasião alguma contra este Daniel” (Dn 6:5), pois a Palavra de Deus diz que “ele era fiel, e não se achava nele nenhum erro nem culpa” (Dn 6:4). Também lemos de Daniel em Ezequiel 14, quando Deus diz que nem se Noé, Daniel e Jó estivessem em Jerusalém a cidade seria poupada — apenas eles livrariam suas próprias almas (Ez 14:14, 20). Este homem que é apresentado, juntamente com Noé e Jó, como um exemplo de justiça e piedade, assume a culpa pelas transgressões do povo de Israel. Parece estranho, mas é bíblico! Veja o exemplo de Esdras (Ed caps. 9 e 10), que mesmo não tendo participado do pecado de Israel quando se misturaram com os gentios, confessou a Deus o pecado da nação, incluindo-se no meio dos culpados: “… porque as nossas iniqüidades se multiplicaram …” Também temos a exortação de Paulo aos coríntios, lembrando-lhes que deveriam estar todos chorando por causa do pecado cometido por um dos seus membros (I Co 5:2). Todos estes exemplos nos ensinam que um homem piedoso, ao ver que há pecado no meio do povo de Deus, irá reconhecer a sua parcela de culpa nisto. Um homem piedoso jamais irá ser como o fariseu, orando hipocritamente: “Ó Deus, graças Te dou porque não sou como os demais homens …” (Lc 18:11). Um homem piedoso irá reconhecer, sempre, que se houve pecado no meio do povo, a vergonha cai sobre toda a congregação. Isto não quer dizer, porém, que o pecado não precisa ser julgado e receber a devida disciplina. Não podemos se contaminados pela atitude vaga que tanto seduz o homem moderno, a atitude de jogar a culpa sempre em cima de outros. A filosofia dos homens diz: alguém rouba, espanca e mata, mas a culpa não é daquele pobre indivíduo — é da sociedade, ou do “sistema”, ou algo convenientemente vago. Assim cresce a impunidade, e com ela cresce o pecado. No meio do povo de Deus, porém, jamais poderemos agir assim — é necessário haver disciplina. Se em I Co 5 Paulo disse que toda a igreja deveria chorar e envergonhar-se pelo pecado cometido, ele também disse que o homem que cometeu tal pecado deveria ser expulso do meio deles. Se Esdras, orando a Deus, incluiu-se com o povo na confissão do seu pecado, quando foi falar ao povo disse claramente: “Vós tendes transgredido …” (Ed 10:10). Não é bíblico fazer vistas grossas ao pecado, “passar a mão na cabeça” de quem errou, diminuir a gravidade do pecado dizendo: “Ora, todo mundo erra”, ou coisas semelhantes. Pelo contrário, assim como Deus repreende e disciplina a todos quantos ama, assim uma igreja local deve exercer disciplina, tratando o pecado como algo abominável a Deus e vergonhoso para o povo de Deus. O que estes exemplos da Bíblia estão nos ensinando não é tanto quanto à nossa atitude em relação ao pecado de um indivíduo, mas sobre o aspecto coletivo da culpa. Se um indivíduo peca, ele é individualmente culpado pelo seu pecado. Como Deus disse a Ezequiel: “A alma que pecar, esta morrerá” (Ez 18:4). Nem pai nem mãe serão culpados — a culpa é individual. Deus tratará cada erro com justiça, considerando-me responsável por cada um dos desvios que eu tenho cometido, e as Suas igrejas devem mostrar o mesmo cuidado em relação ao pecado. Além deste aspecto individual, porém, há uma culpa coletiva que pesa sobre o povo de Deus. Quando Acã (individualmente) pecou contra Deus, o Senhor disse a Josué: “Israel pecou” (Js 7:11), e o povo todo sofreu as conseqüências daquele erro. Acã foi responsabilizado e morreu por causa da sua culpa, mas enquanto Israel não julgasse o erro, Israel era culpado. Assim também o pecado do indivíduo é responsabilidade do indivíduo, mas afeta toda a congregação. Isto é decorrente da doutrina preciosa do corpo. Tudo aquilo que eu faço afeta o corpo todo, para bem ou para mal. Algum membro do corpo tropeçou e caiu? Que vergonha para mim! Quem sabe se eu tivesse orado mais por esse membro, ou se tivesse me preocupado em ensinar-lhe mais, ou se tivesse mostrado mais amor e compaixão por ele — quem sabe, ele poderia ainda estar de pé! Quem sabe fui eu quem serviu de tropeço para esse irmão! Não podemos nos desvincular do corpo. Não podemos criticar a igreja local onde nos reunimos, como se nós não pertencêssemos a ela! Não podemos lavar nossas mãos, e dizer: “Bom, não fui eu quem errou, não serei eu quem irá corrigir o erro”. Não — uma igreja é um corpo. Se há falhas na igreja onde Deus me colocou, o que eu estou fazendo para corrigir estar falhas? Como precisamos da atitude de Daniel hoje em dia. Precisamos parar de reclamar do estado lastimável em que as igrejas estão, e começar a nos envergonhar perante Deus. Precisamos nos humilhar perante Ele, reconhecendo: “Senhor, nós pecamos! Nós temos falhado, como igreja, como Teu povo!” E precisamos ver o que podemos fazer para evitar os tropeços e falhas que existem no meio de nós. Um homem piedoso não se gloria da sua justiça enquanto critica os pecados dos seus irmãos — ele sente-se envergonhado pelos erros que existem no meio do povo de Deus. b.3. Um homem piedoso clama a Deus (vs. 16-19)Além de assumir a culpa de Israel, Daniel clamou a Deus por livramento. Poderíamos pensar que a reação mais lógica, diante da descoberta de que o livramento de Israel estava perto, seria Daniel alegrar-se e agradecer a Deus. Ao invés disto, nós o vemos orando a Deus, insistentemente pedindo que Deus os livrasse. Veja suas palavras: “Ó Senhor … aparte-se a Tua ira e o Teu furor da Tua cidade … Agora, pois, ó Deus nosso, ouve a oração do Teu servo, e as suas súplicas, e sobre o Teu santu*rio assolado faze resplandecer o Teu rosto … Inclina, ó Deus meu, os teus ouvidos, e ouve; abre os Teus olhos, e olha para a nossa desolação … Ó Senhor, ouve; ó Senhor, perdoa; ó Senhor, atende-nos e age sem tardar.“ O conhecimento daquilo que Deus faria não trouxe comodismo a Daniel — muito pelo contrário, incentivou-o a clamar a Deus por livramento, confessando a culpa do povo (e incluindo-se entre os culpados) e confiando na misericórdia de Deus. Ironside escreveu: “Daniel entendeu que quando Deus está prestes a agir, Ele começa despertando o Seu povo para que sejam restaurados nas suas almas”. [veja Nota 2] Novamente podemos dizer: parece estranho agir assim! Deus disse por intermédio de Jeremias: “Certamente que passados setenta anos em Babilônia, vos visitarei, e cumprirei sobre vós a Minha boa palavra, tornando a trazer-vos a este lugar” (29:10). Então por que pedir a Ele que lembre do Seu povo, e que o abençoe? Ele já disse que iria fazer isto! Novamente, porém, estamos diante de algo estranho para o homem natural, mas algo natural para o homem espiritual! Não oramos a Deus para convencê-Lo a mudar de idéia, ou para alertá-Lo sobre algo que Ele não percebeu. Quando oramos falamos com um Deus onisciente, que sabe todas as coisas, e que faz tudo de acordo com a Sua soberana vontade. “Então por que orar?”, pergunta a sabedoria humana. Porque Deus nos mandou orar, e porque sabemos que Ele tem prazer em ouvir as nossas orações. Os exemplos na Palavra de Deus nos ensinam assim. Por que orar pela salvação de incrédulos, se já sabemos que Deus quer salvá-los (I Tm 2:4)? Porque temos o exemplo bíblico desta atitude (Rm 10:1). Por que orar pela preservação das igrejas locais e pelo crescimento do povo de Deus, se já sabemos que esta é a vontade do Senhor? Novamente, temos o exemplo de Paulo em praticamente todas as suas epístolas, mostrando sua preocupação em orar pelos seus irmãos. A maneira como Deus age é assim. Tudo será feito segundo a Sua soberana vontade, mas tudo será feito por intermédio dos vasos fracos que Ele quer usar. Todo nosso estudo da Palavra de Deus deveria ter este alvo — saber orar com mais inteligência. Nossas orações agradam muito mais a Deus quando são orações inteligentes e específicas. Daniel agora podia orar pelo livramento de Israel, não simplesmente baseado na misericórdia de Deus, mas baseado na Palavra de Deus. Como seria bom se nos esforçássemos para estudar, como Daniel fez, e se nossas descobertas nos fizessem orar a Deus, como Daniel fez. Quando leio sobre o Arrebatamento devo clamar: “Ora vem, Senhor Jesus” (Ap 22:20). Quando leio sobre o desejo de Deus em salvar os pecadores, devo clamar: “Senhor, salve minhas filhas!” Quando leio que Deus vai nos apresentar irrepreensíveis perante Ele, devo orar para que possamos ser mais e mais puros hoje. Um homem piedoso nunca permitirá que o conhecimento que ele adquire permaneça somente como conhecimento intelectual — ele sempre irá ser movido a orar a Deus. b.4. As “semanas“É importante entender que “semana”, nesta profecia, descreve um período de sete anos, e não de sete dias. Afirmamos isto baseado nos seguintes fatos:
b.5. O alvo da profeciaFinalmente, não podemos deixar de destacar que a profecia é para Israel. Gabriel disse a Daniel: “Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo, e sobre a tua santa cidade”. Daniel estava preocupado com o futuro de Israel (e especialmente de Jerusalém — v. 2, 19, etc.), e Deus responde-lhe mostrando o que aconteceria com a cidade e o povo de Daniel. Tentar aplicar estas coisas à Igreja causará muita confusão. c. O começo e o fim da profeciac.1. O começoO texto indica claramente quando é que começariam a ser contados os 490 anos: “… desde a saída da ordem para restaurar, e para edificar a Jerusalém …” Só lemos de uma ordem para restaurar e edificar Jerusalém, e esta foi dada no primeiro ano de Ciro, rei da Pérsia. Tanto II Cr 36:21-23 quanto Ed 1:1-4 nos falam que “despertou o Senhor o espírito de Ciro, rei da Pérsia, o qual fez passar pregão por todo o seu reino, como também por escrito, dizendo: … O Senhor Deus dos céus me deu todos os reinos da terra, e me encarregou de lhe edificar uma casa em Jerusalém, que está em Judá. Quem há entre vós, de todo o Seu povo, o Senhor Deus seja com ele, e suba”. É necessário dizer, porém, que a afirmação do parágrafo anterior é muito questionada, e poucos são os que a aceitam. A vasta maioria dos comentaristas sugere que a ordem mencionada aqui em Daniel não foi aquela dada por Ciro no seu primeiro ano, mas sim a permissão que Neemias recebeu no vigésimo ano de Artaxerxes (Ne 2:1-8). A razão da diferençaO problema é que, segundo a cronologia secular, o primeiro ano de Ciro foi 536 a.C. — mas a profecia diz claramente que passariam apenas sessenta e nove semanas (quatrocentos e oitenta e três anos) até que o Messias fosse cortado, e quatrocentos e oitenta anos depois de 536 a.C. nos levam apenas até o ano 53 a.C. (faltam ainda cinqüenta e dois anos até o início desta era, mais vinte e nove [veja Nota 3] até a crucificação). Ou seja, temos duas opções: ou dizemos que a cronologia secular do período Persa está errada (e que o primeiro ano de Ciro não foi 536 a.C., mas sim 455 a.C.), ou procuramos outro acontecimento posterior para marcar o início das setenta semanas. A maioria dos comentaristas optou pela segunda opção, e encontraram o vigésimo ano de Artaxerxes. A importância desta diferençaTalvez pareça perda de tempo querer saber se a ordem foi dada no primeiro ano de Ciro ou no vigésimo ano de Artaxerxes — que diferença isto irá fazer? Quero sugerir, porém, que é importante insistirmos que as setenta semanas começaram no primeiro ano de Ciro, pois este é o último elo na corrente cronológica que leva desde Adão até Cristo. Pelo restante da Bíblia conseguimos calcular precisamente o tempo passado desde Adão até o primeiro ano de Ciro, quando terminaram os setenta anos das desolações de Jerusalém. Mas não conseguimos descobrir quando foi o vigésimo ano de Artaxerxes. Se aceitarmos que a profecia das setenta semanas começa com Ciro e chega até Cristo, então completamos a cronologia, tendo uma seqüência perfeita de Adão até Cristo. Se cremos que esta profecia começa com o vigésimo ano de Artaxerxes, veremos que todas as datas cuidadosamente preservadas no texto do VT chegam somente até Ciro, e param ali. Temos que nos perguntar — por que Deus Se preocupou em deixar uma linha de tempo no VT se esta linha fosse chegar somente até Ciro? É notável ver como as datas estão sempre associadas somente com a linhagem da qual viria o Messias. Mas para que, se tudo leva até Ciro? Mas se vemos uma cronologia que termina com Cristo, então entendemos a razão de todas aquelas datas e genealogias no VT. Todas elas (como tudo na Bíblia) apontavam para Cristo, o escolhido de Deus. Por isso devemos insistir que o início das setenta semanas é o primeiro ano de Ciro. As bases desta diferençaTalvez pareça loucura afirmar que as datas estampadas em todas as enciclopédias do mundo inteiro, em relação ao império Persa, estão erradas; mas quando olhamos para a base onde estas datas se apoiam, veremos que é uma base muito pouco confiável. Há duas diferenças entre as datas relacionadas ao império Persa e aquelas relacionadas ao império Romano, por exemplo, que são importantíssimas:
Para determinar uma data nos dias de Ciro e Artaxerxes, portanto, não temos documentos históricos da época, e nem um sistema cronológico, aos quais recorrer. Então no que se baseiam os historiadores? Num único documento, chamado de “Cânon de Ptolomeu”. O Cânon de PtolomeuPtolomeu (70-171 d.c.) nasceu e viveu no Egito no segundo século desta nossa era, e publicou uma lista dos reis da Medo-Pérsia, Grécia e Roma. Comparada com a cronologia da Bíblia, a lista de Ptolomeu acrescenta 82 anos ao período entre Dario o Medo, e Alexandre o Grande. Ptolomeu não foi um historiador, registrando fatos da sua época, fatos com os quais ele foi contemporâneo. Ele também não tinha documentos confiáveis nos quais pesquisar (pois foram destruídos por Alexandre o Grande). Sem dados concretos, Ptolomeu baseou-se em suposições, cálculos das Olimpíadas, cálculos de datas de eclipses, etc., e formulou um sistema cronológico que começava em 747 a.C. e atingia os seus dias. Este Cânon nunca pode, para um cristão, ser mais confiável do que a palavra inspirada de Deus. Quanto às datas do período de Daniel, temos que crer ou na palavra do profeta inspirado por Deus e que viveu naqueles dias, ou nas palavras do astrônomo incrédulo que viveu mais de quinhentos anos depois daqueles dias. Visto desta forma, não há dificuldade em rejeitar as datas de Ptolomeu. O “problema” da cidadeTendo dito tudo isto, há outro “problema” que precisamos tratar, mesmo que resumidamente. Muita ênfase é dada por comentaristas ao fato de a profecia especificar que a ordem seria para restaurar a cidade (“desde a saída da ordem para restaurar, e para edificar a Jerusalém”), enquanto que a ordem de Ciro não faz nenhuma menção da cidade, mas apenas do Templo. Podemos ter certeza, porém, que a ordem de Ciro abrangeu tanto o Templo quanto a cidade. Primeiro, porque é claro que voltando a Jerusalém para edificar o Templo o povo reconstruiria a cidade também (como uma leitura cuidadosa de Esdras mostrará — veja especialmente 4:12). Segundo, porque uma profecia dada por intermédio de Isaías citou o nome de Ciro como aquele que reedificaria a cidade de Jerusalém (Is 45:1-13). Como sabemos que uma profecia do Senhor não pode cair por terra, sabemos que a ordem de Ciro incluiu a cidade, e não referia-se somente ao Templo. Esta, e outras objeções apresentadas pelos comentaristas, são facilmente respondidas se partirmos do pressuposto que a Palavra de Deus é mais confiável do que a cronologia de um astrônomo egípcio. ConclusãoConcluímos, pois, que o começo deste período de setenta semanas foi o 1º ano de Ciro, rei da Pérsia, em 455 a.C., quando ele deu a ordem para reconstruir Jerusalém e o Templo (Ed 1:1-4). c.2. O finalHá diversas coisas que são apresentadas aqui em Daniel 9 como marcos [veja Nota 4] do final deste período de 490 anos. O v. 24 menciona seis marcos diferentes (os primeiros três relacionados com a morte sacrificial de Cristo, os últimos três com Seu reino soberano), e o v. 27 fala ainda da “consumação”. Creio que todas estes marcos só serão plenamente manifestos durante o reino Milenar do Senhor Jesus Cristo. Poderíamos interpretar alguns deles como acontecendo antes disto (como a unção do Santíssimo), e alguns como ocorrendo depois (como o fim das transgressões, por exemplo), mas creio que o Milênio é a única data onde podemos ver todos estes marcos sendo realizados. Vejamo-los mais detalhadamente: Sem pecado…Os primeiros três marcos mencionados podem ser considerados juntos: “… para cessar a transgressão, e para dar fim aos pecados, e para expiar a iniqüidade …” Temos três palavras semelhantes (transgressão, pecado e iniqüidade), porém com algumas diferenças importantes [veja Nota 5]. Podemos distingui-las assim: “transgressão” é uma desobediência causada por rebeldia, “pecado” é um erro causado por fraqueza, e “iniqüidade” é uma perversão causada por crueldade ou impiedade. Todos os nossos erros encaixam-se numa destas categorias. Ou erramos por desobedecer a Lei de Deus (transgressão), ou não temos forças para fazer o bem (pecado), ou agimos seguindo os impulsos imundos do nosso coração (iniqüidade). Estas três coisas irão passar. A palavra traduzida “cessar” normalmente indica o ato de prender ou impedir [veja Nota 6]. Podemos entender estas três afirmações, portanto, como referindo-se a um tempo em que a transgressão seria coibida, os pecados iriam acabar, e as iniqüidades seriam expiadas. Que tempo é este? Talvez pensemos logo na crucificação, reconhecendo que foi a morte de Cristo que aniquilou, de uma vez por todas, o pecado em todas as suas formas. Isto é verdade — mas a morte de Cristo não pode ser o marco final das setenta semanas, pois a Sua morte acontece depois de sessenta e nove semanas (e não setenta), e porque alguns dos outros marcos mencionados são obviamente ainda futuros (“selar a visão e a profecia”, por exemplo). Também poderíamos pensar que estas coisas serão realizadas quando houver novos Céus e nova Terra, onde nunca mais haverá lembrança ou sombra do pecado. Isto também é verdade — mas as setenta semanas não podem se estender até à nova Criação, pois elas abrangem apenas quatrocentos e noventa anos, menos da metade dos mil anos do Milênio. Resta-nos uma conclusão — estes três marcos serão vistos durante o Milênio. Não será um tempo onde não existirá mais pecado ou transgressão, mas será sim um período onde a justiça e a verdade irão reinar. Naqueles dias “haverá uma fonte aberta para a casa de Davi, e para os habitantes de Jerusalém, para a purificação do pecado e da imundícia” (Zc 13:1). Em Ez 36 lemos de como o Senhor purificará Israel de toda a sua imundícia naquele dia (v. 25), dando-lhes um coração novo, etc. Esta será a característica principal do Milênio. “… e trazer a justiça eterna …“Vários trechos do VT destacam que o Reino Milenar de Cristo será caracterizado por justiça. Por exemplo, “Eis que vêm dias, diz o Senhor, em que levantarei a Davi um Renovo justo; e, sendo rei, reinará e agirá sabiamente, e praticará o juízo e a justiça na terra” (Jr 23:5). Se parece-nos estranho que um período de mil anos seja descrito pela palavra “eterno”, basta lembrar que aquilo que será iniciado no Milênio irá continuar por toda a eternidade. Haverá a breve rebelião de Satanás no final do Milênio, mas ela não será suficiente para alterar as circunstâncias predominantes no Milênio. Aqui em Daniel mesmo (7:27) e em outras passagens o Reino de Cristo é descrito como um reino eterno. Enquanto vivemos neste mundo de pecado e de injustiça, quão bom lembrar que este mundo ainda verá um Reino onde a justiça irá realmente reinar, e que isto será apenas um prelúdio da eternidade perfeita que passaremos na presença de Deus, livres de todo o pecado! “… e selar a visão e a profecia …“Esta expressão não refere-se ao tempo em que a Palavra de Deus foi finalmente completada. Esta seria uma interpretação possível destas palavras, mas não neste contexto (já vimos que o final das setenta semanas coincide com o início do Milênio). Os dias do Milênio serão dias em que “a terra se encherá do conhecimento do Senhor” (Is 11:9) e “todos os … filhos serão ensinados pelo Senhor” (Is 54:13). Serão dias em que não será mais necessário haver profecias e visões, pois o Senhor mesmo porá as Suas leis no coração do Seu povo de tal forma que ninguém precisará ensinar o seu próximo (Jr 31:33-34). Aliás, qualquer um que quiser se apresentar como sendo um profeta deverá ser morto, pois é profeta falso (Zc 13:3-5). “… e para ungir o Santíssimo.“No contexto, creio que esta expressão só pode referir-se ao reconhecimento público do Senhor Jesus Cristo como o Profeta, Sacerdote e Rei de Deus, aquele que Deus ungiu no Seu santo monte (Sl 2:6). Assim Ele será reconhecido oficialmente, e mundialmente, como o Rei que Deus escolheu, e a quem deu o reino eterno. “… até a consumação …“Esta última expressão também aplica-se com muita propriedade ao final do terrível período da Tribulação, quando Cristo voltará triunfante para estabelecer Seu reino eterno. ConclusãoO final da profecia coincidirá com o final da transgressão, o final dos pecados, a expiação da iniqüidade, a entrada da justiça eterna, o fim das visões e profecias, e a unção do Santíssimo. Todas estas coisas só serão plenamente realizadas durante o reino Milenar do Senhor Jesus. Naqueles mil anos haverá um reino de justiça e de paz, onde trangressões, pecados, iniqüidades e injustiça serão esquecidos. Naqueles dias não haverá necessidade de visões e profecias, “pois todos Me conhecerão”, diz o Senhor (Hb 8:11). A bênção futura revelada a Israel nesta profecia só será experimentada durante o Milênio — portanto, entendemos que o final deste período de setenta semanas de anos coincide com o final da Tribulação, que imediatamente antecede o começo do Milênio. Ou seja, quando terminar a Tribulação terminarão também as setenta semanas, e Israel finalmente experimentará esta paz e justiça eternas que Deus lhes prometeu. d. As três subdivisões das semanasAs setenta semanas da profecia de Daniel são divididas em duas partes principais, sendo que a primeira destas contém também duas subdivisões. O primeiro período é da saída da ordem para restaurar Jerusalém até o Messias, e equivale a um total de sessenta e nove semanas (dividido em duas partes: sete semanas e sessenta e duas semanas), restando assim apenas uma semana para completar as setenta.
Consideremos estas partes individualmente. d.1. Sete semanasSete semanas de anos equivalem a quarenta e nove anos. Começando com o primeiro ano de Ciro, quando foi dada a ordem para restaurar e edificar Jerusalém, quarenta e nove anos nos levam até o trigésimo quarto ano de Dario, o ano em que provavelmente Neemias voltou a Jerusalém pela segunda vez (veja Ne 13:6-7). Naquela ocasião ele corrigiu diversos erros que até então vigoravam entre o povo, restaurando em grande parte a santidade que o Templo havia perdido. É provável (mas não podemos afirmar com certeza) que Malaquias profetizou nesta época. A situação que Neemias encontrou em Jerusalém quando voltou da Babilônia foi bem parecida com a situação vivida nos dias de Malaquias. Bem pode ser que estas primeiras sete semanas de anos terminaram com o Templo construído e purificado, e com o último profeta do VT fazendo soar sua voz. Este período começou em 455 a.C. e terminou em 406 a.C. d.2. Sessenta e duas semanasO próximo período da profecia começou em 405 a.C. e terminou em 29 d.C., o ano da crucificação [veja Nota 7]. Ele continua de onde o primeiro parou, e estende-se até a morte do Messias, o Príncipe (“… será cortado o Messias, mas não para si mesmo …”). Duas coisas importantes devem ser destacadas aqui:
d.3. A última semanaA última semana ainda é futura. As primeiras sessenta e nove semanas terminaram com a morte de Cristo, e desde então o relógio profético, em relação a Israel, esteve parado. Resta ainda uma semana, sete anos, antes que Israel seja finalmente restaurada à comunhão de Deus. Os fatos apresentados aqui concordam plenamente com o período que conhecemos como a Tribulação, quando Deus purificará Israel do seu pecado (isto é, tirará de entre eles os pecadores). Ao final daquela terrível semana, Israel estará finalmente pronta para receber seu Rei, o qual reinará com justiça sobre Seu povo. d.4. Provas de que há um intervaloAlguns questionam a validade de inserirmos um intervalo entre a sexagésima nona e a septuagésima semana. Há várias razões que nos levam a dizer que a última semana ainda é futura:
Quando lembramos que sessenta e nove destas semanas certamente já foram cumpridas, e que Deus hoje colocou Israel de lado, e que a Bíblia nos fala de um período futuro em que Israel, de volta à sua terra, sofrerá por sete anos, ao final dos quais receberá seu Rei com alegria, veremos que tudo se encaixa. Veremos que esta profecia revela uma série de acontecimentos, alguns dos quais já passaram (e foram perfeitamente cumpridos), alguns dos quais ainda são futuros (e dizemos, com toda convicção, serão plenamente cumpridos). E veremos, como está escrito quatro vezes em Daniel: o Altíssimo domina sobre os reinos dos homens. Ele estabelece a quem quer, e derruba a quem quer. Ele determina o que irá acontecer, e quando, e onde! Quão grande é nosso Deus! Notas de Rodapé[nota 1] Era o primeiro ano de Dario, ou o sexagésimo oitavo ano das desolações; faltavam apenas dois anos para o retorno prometido. [voltar ao texto] [nota 2] “Daniel”, 2ª edição, 18ª impressão, pág. 157. [voltar ao texto] [nota 3] Parece ser um consenso entre os estudiosos destes assuntos que o monge Dionysius Exiguus, responsável pelo calendário chamado Cristão (532 d.C.), errou em seus cálculos, e que Cristo realmente nasceu no ano 5 a.C. e foi crucificado em 29 d.C. [voltar ao texto] [nota 4] Para facilitar nosso estudo, usarei o termo “marco” neste contexto para referir-me a estas coisas que virão com o final das setenta semanas. [voltar ao texto] [nota 5] É verdade que João afirma que “o pecado é iniqüidade” (I Jo 3:4), mas isto não quer dizer que João está desfazendo das diferenças entre as palavras; ele apenas está enfatizando o caráter perverso das nossas falhas. [voltar ao texto] [nota 6] Em Êx 36:6, por exemplo, lemos que o povo foi proibido de trazer ofertas. Em II Sm 25:33 Davi diz que o bom conselho de Abigail o impediu de derramar sangue. [voltar ao texto] [nota 7] Parece ser um consenso entre os estudiosos destes assuntos que o monge Dionysius Exiguus, responsável pelo calendário chamado Cristão (532 d.C.), errou em seus cálculos, e que Cristo realmente nasceu no ano 5 a.C. e foi crucificado em 29 d.C. [voltar ao texto] |
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